Histórias
Além dos algoritmos: um apelo à ação para narrativas humanas sobre abrigo
Na última quarta-feira, 25 de junho, a equipe regional de Migração, Deslocamento, Vítimas de Tráfico e Refúgio da Cáritas América Latina e Caribe (ALC) organizou a conversa virtual "Narrativas com esperança: transformando narrativas sobre refúgio". Este evento, que contou com a participação de comunicadores da região, teve como principal objetivo promover uma reflexão sobre as narrativas em torno dos refugiados, promovendo uma abordagem mais humana, solidária e baseada no reconhecimento dos seus direitos. A principal motivação foi o Dia Mundial do Refugiado, comemorado anualmente em 18 de junho.
Em um contexto regional onde os discursos de medo, estigmatização e desinformação continuam a impactar profundamente a percepção dos refugiados e migrantes forçados, este encontro procurou tornar visíveis as narrativas atuais, incentivar o diálogo e a troca de experiências, e identificar chaves de comunicação para melhorar a abordagem institucional da questão.
Desinformação, algoritmos e o aumento do discurso de ódio
A principal apresentação do a conversa foi ministrada por Ronal F. Rodríguez, pesquisador e porta-voz do Observatório da Venezuela da Universidade de Rosário e professor da Universidade de La Sabana. Rodríguez ofereceu muitos exemplos e análises, começando pela crise dos Rohingya em Myanmar, onde a desinformação nas redes sociais como o Facebook exacerbou a violência contra esta minoria muçulmana.
Rodríguez explicou como as redes sociais priorizam conteúdos que geram interação, mesmo que sejam falsos, dando-lhes maior visibilidade e amplificando as narrativas de ódio. Comparou esta situação ao atual discurso anti-imigração nos Estados Unidos e na Europa, onde incidentes isolados são usados para criminalizar populações inteiras, e destacou o papel da inteligência artificial e dos algoritmos na amplificação destes discursos.
Da mesma forma, lamentou como a população venezuelana se tornou objeto de ódio e medo na sociedade norte-americana sem representar um perigo real, e destacou a diminuição da cooperação internacional, que agora está reorientada para fins militares. Rodríguez enfatizou a importância de promover a integração de migrantes e pessoas em situação de refugiado e, diante do desafio dos algoritmos, instou os cidadãos a agirem e as organizações da sociedade civil e os jornalistas a assumirem um papel pedagógico fundamental.
Vozes da experiência: histórias de resiliência e esperança
A conversa contou com dois testemunhos emocionantes que deram voz e rosto à realidade da migração. Yosmel Caña é venezuelano e atualmente está no Centro de Descanso de Migrantes da Sagrada Família, na cidade de Danlí, Honduras. Denunciou os maus-tratos e a rejeição que muitos migrantes enfrentam devido ao discurso de ódio. Destacou a importância da fé e da esperança para aqueles que passam por situações difíceis como sequestros e maus-tratos, e agradeceu o apoio recebido em Honduras e o papel da Igreja em nutrir a fé dos migrantes. “Ser migrante não é crime e que, apesar das dificuldades, os migrantes são pais, filhos e famílias em busca de um futuro melhor.
Por sua vez, María Auxiliadora Carvajal, psicóloga venezuelana em busca de asilo na Colômbia, contou sua chegada em 2018, fugindo da violação dos direitos básicos e da perda da liberdade de expressão na Venezuela. permanecer estável e perseverante. “Quando consigo ter um propósito e saber para onde estou indo, acho que isso me permite ser mais estável, mais consistente, mais perseverante naquilo que preciso para mim e minha família. Certamente há muitos desafios que nós, migrantes e requerentes de refúgio num país, temos", disse ele.
María Auxiliadora também compartilhou sua experiência pessoal sobre o apoio recebido na Colômbia de instituições da Igreja Católica, ACNUR e Europana, crucial para sua reconstrução de vida.
Chaves para narrativas éticas e transformadoras
No encerramento da conversa, a jornalista María Eva Lobo, da Cáritas de Venezuela e comunicações líder da Cáritas LAC, apresentou sete recomendações fundamentais para promover narrativas éticas e transformadoras sobre migrantes e refugiados. Ele sublinhou a responsabilidade das instituições de se comunicarem com precisão, empatia e respeito.
As recomendações incluem:
- Humanizar as histórias além dos números: Priorizar histórias individuais e experiências pessoais, incluindo testemunhos, fotografias e vídeos que mostrem a resiliência e a diversidade das pessoas, e sempre obter consentimento informado.
- Inclusivo. e linguagem e terminologia dignas: Evite termos pejorativos como "ilegais" ou "invasores" e use "refugiados", "migrantes", "pessoas em mobilidade humana" ou "requerentes de asilo", explicando as diferenças de acordo com o direito internacional.
- Diversifique e verifique as fontes de informação: Especialmente em tempos de notícias falsas, é crucial verificar cada fonte, incluir as vozes das pessoas em movimento como fonte primária e evitar confiar apenas em fontes governamentais não verificadas.
- Conteúdo visual respeitoso e fortalecedor: Use imagens que empoderem e mostrem a dignidade das pessoas, evitando imagens sensacionais que vitimizem sem contexto e priorizando fotos que mostrem sua diligência e contribuição para as sociedades anfitriãs.
- Destaque as causas profundas e o impacto regional: Analise as razões por trás da migração forçada (violência, perseguição, crises econômicas, desastres naturais) e mostre o impacto nas comunidades de origem, trânsito e destino, promovendo a compreensão da migração como um fenómeno complexo e multidimensional.
- Comunicar ações de apoio e reforçar o compromisso institucional: Destacar ações de assistência humanitária, defesa de direitos e integração, colaboração entre organizações e governos, e reforçar o compromisso institucional com os valores de acolhimento, proteção, promoção e integração, lembrando os quatro verbos do Papa Francisco.
- Combater a desinformação e a xenofobia: Realizar monitorização permanente para identificar narrativas falsas e discursos de ódio, construir narrativas próprias que reposicionem positivamente a mobilidade, e publicar informações precisas e verificadas para desmascarar mitos, promovendo a educação e a conscientização
Em conclusão, o evento reafirmou o compromisso contínuo com a comunicação ética que dignifica os outros, com o objetivo final de promover uma sociedade mais informada, compreensiva e solidária com refugiados e migrantes, promovendo a reflexão crítica e o diálogo construtivo sobre a migração.